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Os cinco solas da Reforma, explicados com simplicidade

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Oficina de tipografia antiga com uma prensa de madeira e folhas impressas a secar

Em Outubro de 1517, Martinho Lutero, monge e professor de teologia na universidade de Wittenberg, tornou públicas noventa e cinco teses contra a venda de indulgências. Ele queria um debate académico. As teses foram impressas e, em poucas semanas, circulavam por toda a Alemanha. A prensa de Gutenberg, inventada cerca de setenta anos antes, fez com que uma discussão entre professores se tornasse uma questão de toda a Europa.

Nas décadas seguintes, os reformadores resumiram em fórmulas curtas, em latim, aquilo que estava em causa. Mais tarde essas fórmulas foram reunidas em cinco expressões com a palavra sola («somente»). Não são cinco doutrinas soltas: respondem juntas à pergunta mais importante que alguém pode fazer, que é como um pecador pode estar em paz com Deus.

1. Sola Scriptura: somente a Escritura

A Bíblia é a autoridade final sobre o que cremos e como vivemos. Os reformadores não rejeitavam a tradição da Igreja; liam com gosto os pais da Igreja e os concílios antigos. Mas punham tudo debaixo da Escritura, porque só ela é Palavra de Deus inspirada. Quando um costume, um papa ou um concílio contradizia a Bíblia, era a Bíblia que prevalecia.

Foi por isso que a Reforma traduziu a Escritura para a língua do povo. Lutero traduziu o Novo Testamento para alemão em 1522. Em português, João Ferreira de Almeida, um português convertido à fé reformada, fez a primeira tradução do Novo Testamento, publicada em 1681.

2. Solus Christus: somente Cristo

A salvação encontra-se apenas em Jesus Cristo. Ele é o único mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2.5), e a sua morte na cruz é suficiente para perdoar todos os pecados de quem confia nele. Não precisamos de outros mediadores, de santos, de sacrifícios repetidos ou de méritos acumulados para nos aproximarmos de Deus. A carta aos Hebreus insiste que Cristo se ofereceu «uma vez» por todas (Hebreus 9.28).

3. Sola Gratia: somente a graça

A salvação é um presente de Deus, não um salário. A palavra grega charis, graça, fala de um favor dado a quem não o merece. Deus não nos salva porque viu em nós alguma coisa que o atraísse, mas porque decidiu amar-nos em Cristo. É o que Paulo escreve aos Efésios: «Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie» (Efésios 2.8-9).

4. Sola Fide: somente a fé

Se a salvação é pela graça, recebe-se pela fé, isto é, confiando em Cristo. Lutero descobriu esta verdade ao estudar a carta aos Romanos, especialmente as palavras «o justo viverá da fé» (Romanos 1.17). Percebeu que a «justiça de Deus» de que Paulo fala é também um presente que Deus dá a quem crê: a justiça de Cristo, contada a nosso favor.

A fé não é uma obra que merece a salvação. É como a mão vazia de um mendigo que recebe o pão. E a fé verdadeira nunca fica sozinha: produz obras, mas as obras são fruto da salvação, não a sua causa.

5. Soli Deo Gloria: glória somente a Deus

Se a salvação vem da Escritura, se se encontra só em Cristo, se é só pela graça e se se recebe só pela fé, então toda a glória pertence a Deus. Nenhum ser humano pode reclamar parte do mérito. Mas este princípio vai além da salvação: toda a vida, incluindo o trabalho, a família e o descanso, pode ser vivida para Deus. «Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus» (1 Coríntios 10.31).

Johann Sebastian Bach, luterano, escrevia as iniciais «S.D.G.», de Soli Deo Gloria, no fim de muitas das suas partituras. Era a forma de dizer que também a música que compunha era para Deus.

6. Porque continuam actuais

Os cinco solas não são uma peça de museu. Continuam a responder a perguntas de hoje:

  1. Quando surgem novas ideias sobre Deus, a pergunta continua a ser o que diz a Escritura.
  2. Quando a espiritualidade se torna uma lista de técnicas, lembram-nos de que só Cristo salva.
  3. Quando alguém sente que nunca é suficientemente bom, a graça e a fé dizem-lhe que a salvação não depende do seu desempenho.
  4. Quando a vida cristã se centra em nós, a glória de Deus volta a pôr as coisas no lugar.

A Igreja Baptista de Cascais tem uma teologia reformada e resume estas convicções na sua confissão de fé, onde os cinco pilares da Reforma aparecem logo no início.